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Uma Bondade Perfeita

Uma Bondade Perfeita

Uma Bondade Perfeita [Excerto]

A mulher de Menigno era um modelo de fraquezas. Foi vista pelo abutre, ao descer do comboio, meia coxa descoberta, e tão jovem, que logo denunciou sua maior fragilidade: envaidecer-se por um piropo, que a levou ao altar.
Nessa época, o mar ainda atraía; com ele, chegou a linha férrea. No intervalo, Menigno construía biografia. Tem cada um de nós o seu pequeno intervalo de vaidade.
Na boda, que se preparou em cinco anos de namoro esparso, do lado dela estavam amigas que a viam pela última vez; da parte dele, a mãe recolheu cedo, e o pai secava o bigode lúbrico, entre hunhuns baixos numa roda de infiéis. O noivo odiava-o ‒ donde, impunha-lhe nora com a idade de neta, que ele não iria perseguir, como fizera a tantas, para desgosto da mãe.
Não previra um rumor, que estragava o copo-d’água: na ausência da família, não seria aquela flor de laranjeira uma enjeitada? pior, rejeitada? Havia aí sangue cigano, cabelo preto corredio, morenez que alucinava, olhos que, na noite de núpcias, irromperam a chorar.
E, ao primeiro não de virgem pudica, a fúria soltou os diques da conveniência e violou-a. Querendo irritar o pai, vingou na infeliz as sovas que dele recebeu; e porque a grávida refilasse – como jamais a mãe fizera, fosse às injunções do marido, fosse aos caprichos do filho –, só ameaçou uma vez: à segunda, cumpriu sem água vai, que fervia numa tina, e desfigurou um corpo aos gritos, atirando-se ao poço do quintal, para se afogar.
Deixava duas filhas, com a diferença de um ano: Irma e Ágata.
Passam semanas de nojo fingido, em que vai ao cemitério para seguir velha amiga – com um filho –, e, a pouco e pouco, insinua-se, encostam-se a um cipreste, coroa-lhe a viuvez com segundo rebento. Fala-se do putativo pai, e porque, senhora de virtude, não ficava bem abortar, nem fazer sombra ao benjamim, resigna-se a orfanato, onde cresce fruto do pecado.
Alguns jornais, entretanto, investigavam aquele afogamento. E como, por morte dos pais, o homem açambarcasse fortuna e sonhos de carreira política, não deu conta do perigo. Irascível, a pressão fez-lhe perder as estribeiras. O principal diário da capital ofereceu, mesmo, edição «cheirando a cipreste».
Como resposta, lembrado de outra coxa descida do comboio, que apanhou o ramo de noiva, e já assediava na tarde da boda, vendeu novo casamento a revista de moda, enquanto gizava estratégia para sovar o redactor do «cipreste».
Alcina era inteligente, e órfã, diziam uns, ou, outros, rebelde, fugida de casa. Vivia no extremo da cidade, de lições de língua a estrangeiros. Tinha uma intrépida confiança no ser humano. O mais que ela imaginava de maldades eram desvios de bigode galante, nunca a indiferença que a esperava. Ele, sob suspeita, vestia de preto e honestidade; não podia bater na mulher, ou dar-lhe banho. Subsidiava a escola de línguas, com galas e prémios de trimestre anunciados aos quatro ventos, que exauriam o tesouro familiar e a paciência do acossado.
Certa noite, o período deu-lhes a volta à cabeça. Este período não é gramática, como dizia criança já a caminho. Ele não sabia, e estancou a inconstância. Houve clarões de felicidade conjugal, medos de um e outro, dúvidas, os meses passaram, a novena já lá vai, e o vespertino do cipreste a fotografá-la barriguda – entrementes, reabre o processo judicial de homicídio por negligência, que o jornal dá em tímidas linhas, por outros abocanhado.
Foram dois meses de nervos. Um dia, convida o redactor principal para casa, numa espécie de tréguas, ou de reconhecimento por linhas comedidas; queria pedir conselho a alguém do meio na sua relação com a Imprensa, não pelo processo em curso, mas por causa do filho que aí vinha. Não gostaria de prejudicar a criança, face à pressão que adivinhava. «Sim» ‒ e recusava aperitivos, olhando relógio. «Hora de fecho.»
Derivou para «graças a Deus», por tais noivas, «dois anjos», soubera de Alcina ao oferecer uma fatia do bolo de noiva – da primeira, «infausta», Violeta –, nunca mais a esquecera, fora Alcina a desviá-lo de uma relação cheirando a cipreste, «Bem», diz o redactor, que aconselhava viagem ao estrangeiro, «com autorização do juiz». E descobria o relógio na dobra de uma inquietação.
Este gesto de ex-inimigo comoveu-o. Tão ocupado, tão prestável. Forçou um abraço; incomodado, olhando sempre o relógio, esquivara-se, com um nó no peito.

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